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Henriqueta Lisboa -
Poesia
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E volta sempre a infância com suas íntimas, fundas amarguras. Oh! por que não esquecer as amarguras e somente lembrar o que foi suave ao nosso coração de seis anos?
A misteriosa infância ficou naquele quarto em desordem, nos soluços de nossa mãe junto ao leito onde arqueja uma criança;
nos sobrecenhos de nosso pai examinando o termomêtro: a febre subiu; e no beijo de despedida à irmãzinha à hora mais fria da madrugada.
A infância melancólica ficou naqueles longos dias iguais, a olhar o rio no quintal horas inteiras, a ouvir o gemido dos bambus verde-negros em luta sempre contra as ventanias!
A infância inquieta ficou no medo da noite quando a lamparina vacilava mortiça e ao derredor tudo crescia escuro, escuro...
A menininha ríspida nunca disse a ninguém que tinha medo, porém Deus sabe como seu coração batia no escuro, Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida — batendo, batendo assombrado!
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